Em uma palestra sobre inovação e empreendedorismo que estava ministrando em uma escola de nível médio, um participante perguntou-me se as pessoas já nasciam criativas e empreendedoras, ou se por motivos diversos seguiam uma vida empreendedora apenas quando adultos, e olhe lá… Boa pergunta, para a qual respondi com toda certeza que sim! Nascemos totalmente criativos e empreendedores, senão não teríamos sobrevivido… Observe as crianças, como criam coisas novas a toda hora em seus brinquedos, sem medo, e como vão “se virando” para conseguir as coisas… Mas então o que acontece conosco quando crescemos? Acho que uma boa resposta nos é dada pelo lindo trecho que transcrevo abaixo, de autoria do imortal Dostoiévski:

Somos assim: sonhamos o voo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram. (Fiódor Dostoéviski, em “Os Irmãos Karamazov”)

E como vivemos procurando certezas! Sonhamos, mas tememos tantas coisas… E assim permanecemos durante toda as nossas vidas, tendo sob os pés terreno seguro, mas muitas vezes vazio e estéril… Não é verdade? E como criamos “gaiolas” que nos aprisionam tantas vezes, e de tantos modos! Faço estas afirmações com grande certeza, porque ao longo da vida conheci e convivi com muitas pessoas empreendedoras, que se libertaram das suas “gaiolas”, até arrebentando-as muitas vezes. Algumas “quebraram a cara”, é lógico, recuperaram-se e voltaram para a proteção proporcionada pelas antigas “gaiolas”, mas outras se libertaram, criaram empresas de sucesso, ou seguiram outros rumos que as tornaram pessoas felizes e realizadas.

E como existem “gaiolas” nos espreitando a cada ponto de nossas vidas! Em relação à criatividade, por exemplo, temos o nosso próprio sistema escolar, bem como as naturais normas sociais. No caso do sistema escolar, temos muito que aprender para a vida, sim, mas com a metodologia usualmente utilizada, e sem estímulos ao contrário, o resultado é problemático, conforme a pesquisa referenciada em [1]. Segundo ela, supondo que nasçamos com algo como 98% de criatividade, aos dez anos estaremos com 30%, com quinze anos com 12%, e finalmente com vinte e cinco anos com apenas 2% da criatividade original… É claro que existirão exceções, geradas por famílias criativas, ambientes culturalmente saudáveis e estimulantes, metodologias de ensino mais ativas, e assim por diante…

Também podemos entrar em outras “gaiolas” modernas sem perceber. Ou o consumismo exagerado, tão fartamente oferecido pelo marketing moderno… Ou “gaiolas virtuais”, que nos limitam a ficar postados diante de nossos dispositivos eletrônicos muitas horas ao dia, muitas vezes em redes sociais e congêneres, esquecendo o que tais meios podem nos oferecer em termos de cultura e aprendizagem, ou mesmo em debates e ações verdadeiramente úteis…

E, por incrível que pareça, nossa própria ocupação ou emprego pode ser uma “gaiola”, quando não gostamos do que estamos fazendo ou nos obrigamos a excessivas horas de trabalho, todos os dias, em uma rotina muito desgastante. Conheço várias pessoas que se libertaram dessas “gaiolas”, até viveram alguns tempos difíceis no princípio, mas depois desabrocharam em novas ocupações e tiveram grande sucesso.

É, de vez em quando temos que parar e refletir sobre nossas vidas e ler, reler, e meditar com base no recado que Dostoiévski nos deu em seu lindo texto…

Referência:

[1] LAND, G.and JARMAN, B. Teste de Criatividade: estudo longitudinal 1973-1985. New York: Harper Business, 1993.

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