Mercado de Carbono no Brasil: Especialista do Itaú BBA Defende Regras Específicas para o Agronegócio
O agronegócio brasileiro, responsável por cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa no país, enfrenta um desafio crucial para se adequar às metas globais de descarbonização. Apesar de sua importância econômica e ambiental, o setor foi excluído do mercado regulado de carbono, o que pode limitar seu desenvolvimento sustentável. No entanto, essa exclusão também abre a possibilidade de criar regras específicas para impulsionar a transição para uma economia de baixo carbono.
Em entrevista à Bloomberg Línea, Victor Natal, head de ESG Research do Itaú BBA, destacou que, embora o setor não faça parte do mercado regulado, ele não pode ficar à margem dos esforços para reduzir emissões. “Não é um problema o agro não participar agora, mas precisamos definir se ele entrará futuramente ou se seguirá um caminho próprio para a descarbonização”, afirmou. Ele considera essa exclusão o único entrave significativo no avanço do mercado de carbono no Brasil, mas reforça que o país está no caminho certo para estruturar um sistema eficiente e bem-sucedido.
O Potencial de um Mercado Bilionário
Um estudo publicado pelo Itaú BBA em parceria com a Câmara de Comércio Internacional (ICC Brasil) e a Way Carbon estimou que o mercado regulado de carbono no Brasil pode movimentar até US$ 120 bilhões até o final da década. Previsto para entrar em operação em 2030, o sucesso desse mercado dependerá de uma estrutura sólida, com precificação competitiva e mecanismos de fiscalização rigorosos.
Para Natal, garantir a evolução desse sistema é essencial. “Esse mercado está sendo bem estruturado, mas precisa continuar se aprimorando em termos de precificação, abrangência e punições para garantir sua eficácia”, destacou. Ele acredita que o Brasil tem potencial para se tornar um líder global na economia verde, desde que setores estratégicos, como o agronegócio, sejam incluídos de maneira estruturada.
O Desafio de Medir as Emissões do Agronegócio
A exclusão do agronegócio do mercado regulado reflete um desafio técnico global: a dificuldade de quantificar suas emissões. Diferente de setores como siderurgia, aviação e petróleo, cujos processos produtivos possuem padrões claros, a cadeia do agronegócio é mais diversificada e complexa de monitorar.
Segundo Natal, essa dificuldade não é exclusiva do Brasil, pois nenhuma bolsa regulada de carbono inclui o setor entre aqueles com participação obrigatória. No entanto, ele defende a criação de metodologias específicas para viabilizar sua integração futura ao sistema regulado. Enquanto isso, o agronegócio pode se beneficiar do mercado voluntário de carbono, gerando créditos a partir de práticas sustentáveis, como reflorestamento e agricultura regenerativa.
Oportunidades para Setores Excluídos
Embora o agronegócio e o setor de gestão de resíduos tenham ficado fora do mercado regulado, essa exclusão pode se transformar em vantagem. “Esses setores não têm obrigatoriedade de descarbonização, mas podem criar projetos de crédito de carbono e se beneficiar com a valorização desses créditos no mercado”, explicou Natal. Esse modelo incentiva investimentos em soluções sustentáveis sem impor restrições diretas.
Enquanto isso, setores como siderurgia, cimento, transporte marítimo e óleo e gás estarão sujeitos a metas rigorosas e custos elevados para reduzir suas emissões. Para eles, a transição será desafiadora, mas essencial para atender aos compromissos climáticos globais.
A Precificação do Carbono como Caminho
O mercado de carbono no Brasil se divide em duas frentes: o mercado voluntário, onde empresas e indivíduos compensam emissões espontaneamente, e o mercado regulado, que estabelece metas obrigatórias para grandes emissores. Diferente de países como Argentina, Chile e Colômbia, que adotaram modelos de tributação, o Brasil aposta em um sistema que equilibra flexibilidade e incentivos econômicos.
Para Natal, esse modelo tem potencial para ser bem-sucedido. “O Brasil está indo por um caminho positivo e devemos ter um mercado regulado de carbono bem estruturado”, afirmou. No entanto, ele reforça que o agronegócio precisa ser considerado nesse processo, mesmo que de forma indireta, para garantir que o país aproveite todo o potencial econômico e ambiental do sistema.
Um Setor em Evolução
O agronegócio brasileiro, reconhecido por sua eficiência e escala, tem a oportunidade de se tornar um protagonista na agenda climática global. A adoção de práticas sustentáveis não apenas fortaleceria sua competitividade internacional, mas também abriria novas frentes de receita, especialmente com a crescente demanda por produtos de baixo impacto ambiental.
Com o mercado regulado de carbono previsto para 2030, o agronegócio tem tempo para se preparar e definir estratégias. Para Victor Natal, o momento de agir é agora: desenvolver metodologias de medição, estabelecer regras específicas e aproveitar as oportunidades do mercado voluntário são passos essenciais para que o setor não apenas se adapte, mas prospere em um cenário global cada vez mais voltado à sustentabilidade.
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